Software Livre

MEU SONHO? EU SÓ QUERO SALVAR O MUNDO!

Cora Rónai e Elis Monteiro - 12/09/2002

Fonte: O Globo

Encontrar Richard Stallman, o guru do software livre, é sempre um acontecimento. Conciliar a visão do über-geek rude e desleixado com a conversa do pensador extremamente sofisticado é um desafio e tanto compensado por inúmeros momentos de bom humor, inesperadas tiradas contra as armadilhas que os governos do mundo inteiro vêm armando contra o indivíduo depois de 11 de setembro e, naturalmente, grandes doses de explicações e esclarecimentos sobre o papel fundamental do software para o aprimoramento da qualidade de vida no planeta. Para RMS (como é conhecido pela tribo), o software é uma ferramenta de libertação e, como tal, não pode ser propriedade de ninguém. Simples assim. Cora Rónai e Elis Monteiro

Como você vê o software livre hoje no Brasil?

RICHARD: Vejo muito entendimento do que é software livre, muita compreensão da importância de não se ficar nas mãos de empresas que fazem software proprietário. Brasil e Índia são dois países que entenderam bem isso, e seu futuro parece muito promissor aqui.

Exemplos como Rio Grande do Sul, São Paulo e, agora, Rio, podem ajudar no processo?

RICHARD: Esses exemplos são ótimos. É papel dos governantes promover a liberdade para as pessoas. Mas o Brasil ainda gasta bilhões de dólares com permissões de uso de software proprietário. Deveria ser uma alta prioridade do governo brasileiro não apenas usar software livre em suas atividades, mas convencer a sociedade de que esta é uma escolha fundamental.

Mas você acha possível a MS abrir mão do poder que conquistou no Brasil?

RICHARD: Se ela se tornasse uma empresa de software livre, ainda assim seria poderosa. E diríamos OK, porque o importante é libertar o usuário. Este não é um movimento para ferir a Microsoft, mas para garantir que ninguém dominará o usuário, detendo poder sobre suas ações. A Microsoft não deveria poder fazer isso. Ninguém deveria! Todos podem se adaptar a mudanças. Eu adoraria ver isso... Quero liberdade e cooperação, é para isso que eu vivo. O maior obstáculo, no entanto, é a inércia.

Você conhece o projeto do governo de levar a informática às escolas, com dual boot em algumas máquinas?

RICHARD: É ruim usar Windows, mas o dual boot já é um primeiro passo. Com soluções de GNU/Linux e Windows na mesma máquina, pelo menos as pessoas terão liberdade de usar GNU/Linux e, com o tempo, rejeitar a opção Windows. Se os professores forem convencidos a usar a partição GNU/Linux, nunca farão o boot em Windows. Obviamente, isso não é suficiente: parte do trabalho das escolas é ensinar os alunos a ter atitude e espírito de cooperação. Repito: o que mantém a sociedade amarrada ao software proprietário é a inércia.

Como convencer a sociedade de que software livre é melhor?

RICHARD: Se você instala numa escola dez computadores e apenas dois deles rodam software livre, será mais fácil para os professores usarem Windows. Temos que pensar a longo prazo. A mudança acontecerá aos poucos.

E o movimento open-source?

RICHARD: Ele encoraja pessoas a usar o software e a desenvolvê-lo, mas não diz que a idéia do software não-livre é errada. Não apresenta a escolha entre o software livre ou não como uma questão para melhorar a sociedade. O movimento teve muito sucesso usando nosso nome, e diversos artigos nos EUA associam o software livre ao open-source. O resultado é que parece que eles nos representam. Na América Latina, ao contrário, fala-se em software livre. Aqui sabe-se a diferença, mas nos EUA eles traduzem free software como open-source e fica por isso mesmo.

Qual é a relação entre a internet e o movimento do software livre?

RICHARD: A internet ajuda, mas não é necessariamente obrigatória. Quem trabalha comigo nem sempre usa a rede para se comunicar comigo. Ela não é o centro das coisas.

Como você vê a situação da internet depois dos atentados de 11 de setembro? Teme um cerceamento da liberdade?

RICHARD: A internet não foi afetada. Os ataques foram sentidos em todo o mundo, não só nos EUA, como o presidente George Bush faz parecer. Acompanhado de seus advogados malsãos, ele usa o terrorismo como desculpa, mas esses advogados são muito mais perigosos do que os terroristas. Roubar a eleição, como ele fez, é crime; atacar a liberdade e os direitos das pessoas também é crime.

Você viaja muito. Quantos dias passou em casa este ano?

RICHARD ( usando o computador ): Ah... 72 dias! Mas o ano ainda não acabou... (risos)

Onde já esteve em 2002?

RICHARD: Passo muito tempo em Nova York e Washington. Em fevereiro fui à França, à Bélgica, à Inglaterra. Vim ao Brasil duas vezes. Em março fui à Índia, em junho à Itália e à Grécia. Fui à Argentina, ao México e à Costa Rica. Mas não escolho o roteiro; só viajo quando me convidam.

E a Microsoft, tem ajudado direitinho o movimento?

RICHARD: Com certeza! Muita gente se une ao software livre por ódio à MS. Mas o problema é maior que a MS: ela é apenas uma das companhias que desenvolve software proprietário, que divide as pessoas em vez de ajudá-las. Ela apenas faz isso com mais pessoas que as outras. O problema é o conceito. Software não pode ser proprietário, e pronto. Quando começamos a desenvolver o GNU, em 1984, a MS não era particularmente importante.

Você conhece Bill Gates?

RICHARD: Não. Ele nunca me convidou para nada. Várias pessoas já tentaram chamá-lo para debater comigo, mas ele nunca aceitou. Não sei quem se sairia melhor. Não sou o melhor dos debatedores; não tenho o talento que alguns advogados têm para distorcer as palavras... Por falar nisso, estarei num bom debate na Comdex, com John Perry Barlow, contra representantes de gravadoras, entre eles Hillary Rosen (CEO da Riaa).

Eles acabaram de vez com o Napster semana passada. Mais um triunfo contra o usuário...

RICHARD: Tenho que confessar: estou muito desapontado com a forma como a sociedade está vivendo. Antigamente, o sonho americano era conseguir um certo conforto, uma casa, um carro. Uma vida de classe média, algo alcançável pela maioria das pessoas. Hoje é ser um CEO biliardário. A qualidade de vida não importa mais, apenas o dinheiro.

E qual é o seu sonho?

RICHARD: O meu? Salvar o mundo, claro! Queria poder salvar o mundo de todas as coisas ruins... É só um sonho, né? Mas na verdade, posso, pelo menos, lutar a favor da democracia contra uma coisa ruim... Tá, eu também gostaria de inventar aviões mais rápidos e viagens interplanetárias. Não espero conseguir isso (risos).

A gente soube que você não usa celular. Por que?

RICHARD: Porque não quero ajudar o governo a saber onde estou, só isso.

Você confia em urnas eletrônicas, como as que o Brasil usa nas eleições?

RICHARD: Não, acho que as eleições são algo sério demais para ficar na área eletrônica. E não confio em software proprietário. É importante que haja uma prova física, concreta, do voto que foi dado.